A Humanidade É Uma Gorda Dançando em Um Banquinho

Uma palavra que poderia resumir esse livro se ela não carregasse alguma solenidade, o que contraria o espírito das páginas a seguir – é coragem. Não é fácil dizer certas coisas. Menos ainda, sustentá-las sem piscar o olho, abrindo mão da facilidade de incluir uma mancezinha, um “é bem verdade que”, algum sinal óbvio para o “homem das exceções” sempre pronto para se chocar. Alexandre Soares Silca, claro, sabe disso. Uma autoironia discreta, que poucas vezes se anuncia como tal, indica que até ele deve achar absurdo alguns dos próprios juízos. Eu acho, em especial os ataques ao Bem e ao Belo e também aos meus amigos.

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O Poeta e os Lunáticos

“Gabriel Gale era um pintor e um poeta; a última coisa que lhe passaria ela cabeça é fingir ser detetive, ainda que dos mais privados. Calhara de ele haver resolvido vários mistérios; conquanto mistérios quase todos de natureza algo atraente aos místicos. Não obstante, uma ou duas vezes deu-se também de ele haver saído, à força das circunstâncias, de entre as nuvens do misticismo para a atmosfera mais fresca e revigorante do assassinato. Ora conseguira demonstrar que um assassinato fora de fato um suicídio; ora, que um suicídio de fato fora um assassinato; vez ou outra chegou mesmo a enveredar pelo estudo de ofícios recreativos tais como a falsificação e a fraude. Mas a conexão era, no geral, uma coincidência; ligava-se a algum ponto em que o interesse imaginativo que nutria pelas estranhas motivações e movimentos psicológicos do homem ocorrera de levá-lo — ou, ao menos, levá-los — até o limite (e às vezes além) da legalidade. E, na maioria dos casos, como o próprio aliás fazia notar, as motivações de assassinos e larápios eram perfeitamente sãs e mesmo convencionais.”

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