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Quem foi Nikolai Berdiaev?

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A infame Revolução Russa  não deixou somente destruição, miséria e desolação. Provocou também em algumas almas russas uma necessidade de lutar contra a atrocidade que estava acontecendo. Talvez eles, os escolhidos, tenham sido insuficientes, mas foram os necessários para limpar o rosto do povo russo em suas horas mais sombrias e denunciar todas os crimes cometidos pelos comunistas.

Um dos arquitetos deste processo de restauração sem êxito foi o intelectual russo Nikolai Berdiaev, nascido em Kiev em 1874, no Império Russo, e morto no exílio em Paris no ano de 1948. Não era um político, ao contrário, era um humilde intelectual russo dedicado à filosofia, que ao contrário de outros fugitivos da revolução, não dedicou-se a enumerar os abusos de poder em questões políticas e econômicas, mas, sim, dedicou sua vida para refletir sobre como os distúrbios espirituais que podem levar ao estabelecimento de um regime autoritário, ou seja, como uma má metafísica leva ao mau governo.

Nikolai Berdiaev foi descendente de uma família aristocrata russa que lhe deu uma excelente educação e formação intelectual sólida. No entanto, como muitos jovens de sua condição social e sua geração, tornou-se revolucionário quando entrou na Universidade de Kiev em 1894. Uma vez lá, ele faz amizade com muitos outros agitadores revolucionários, tornou-se marxista e participou de várias atividades de propaganda comunista, que o levaram, em 1898, a ser preso e exilado para o norte da Rússia.

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Muitos intelectuais russos foram banidos da Rússia pela revolução bolchevique. Da esquerda para a direita: Pavel Florensky, Nikolai Lossky, Boris Pasternak e Ivan Bunin.

De volta à Kiev após o exílio, ele se aproxima de Serguéi Bulgákov, um sacerdote ortodoxo russo que exerce uma influência significativa sobre ele. Ao longo dos anos, ele foi substituindo o seu sistema de valores marxistas por uma crença crescente no cristianismo ortodoxo, ao mesmo tempo em continuava a ser muito crítico da hegemonia da Igreja Ortodoxa Russa. Mesmo em 1913, ele estava prestes a ser banido para a Sibéria por criticar o Santo Sínodo da Igreja, mas o começo da I Guerra Mundial  impediu seu exílio.

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Nikolai Berdiaiev

A partir de 1916 começou a carreira de Nikolai Berdiaev como escritor, com a publicação de seu primeiro livro “O significado da criação”.  Seguiu-se então  uma série de livros de sua autoria, sendo cada novo título mais interessante e mais profundo do que o último.

Apesar do triunfo da revolução em 1917, Nikolai Berdiaev não teve de início problemas com a lei. Isto só veio em 1922, quando 160 intelectuais russos, entre os quais estava Nikolai Berdiaev, foram expulsos da Rússia por serem apenas “desconfortáveis” aos bolcheviques, nem mesmo por serem abertamente de direita ou anti-comunistas.

O primeiro destino de seu exílio foi Berlim, mas as difíceis condições de vida naquela época o fizeram empreender um novo vôo, desta vez para a Meca de quase todos os exilados soviéticos: Paris.

Paris permitiu a Berdiaev explorar as mais diversas facetas intelectuais, dimensões que eram até então desconhecidas para ele. Ele nunca foi o mesmo ser intelectual no Ocidente do que fora na Rússia. Em Paris Nikolai Berdiaev fez amizade com a comunidade intelectual francesa, enfrentou os apologistas do regime russo, fundou uma escola de filosofia, escreveu livros, proferiu palestras e trabalhou duro até encontrar a morte em 24 de março de 1948, enquanto escrevia em sua mesa de trabalho.

Ao contrário de outros existencialistas, como Jean Paul Sartre, e outros anti-comunistas, como Albert Camus, Nikolai Berdiaev sempre foi caracterizado por falar do espírito e sobre o espírito, sem cair em qualquer misticismo. Portanto, não se deve de modo algum compará-lo a Rasputin. Berdiaev, além de ser um russo anti-comunista, é um anti-modernista e um anti-materialista, cujo trabalho não só critica o pior regime totalitário que a história conheceu, como também propõe uma abordagem curiosa sobre a liberdade humana.  Abordagem esta que é um exercício da essência e natureza das pessoas.

Nikolai Berdyaev pode se inscrever na mesma tradição ideológica de outros autores russos como Fyodor Dostoyevsky, Liev Tolstói e Vladimir Soloviov. Eles têm em comum, com diferenças e nuances,  uma ênfase na importância da transcendência humana em uma sociedade materialista.

A Editora Danúbio vende em sua loja online uma tradução brasileira do livro de Nikolai Berdiaiev, Uma Nova Idade Média.

 

 

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