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Um prefácio a Unamuno – Tiago Amorim

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Se nos deixarmos levar pelas correntes ideológicas vigentes, corremos o sério risco de nos tornarmos partidários — de uma causa política, de um movimento, de uma agenda de interesses agrupados. É isso o que grande parte de nossos intelectuais, artistas e formadores de opinião têm feito ao aderir a coletivos que lhes fornecem os pressupostos e as garantias de sua crítica, ensino e atuação. De alguma maneira, o teatro do mundo tornou-se um palco onde sobrevivem os coros em detrimento dos personagens: enquanto os primeiros são marcados pelo uníssono e o homogêneo, os segundos são identificados pelas idiossincrasias e a irrepetibilidade.

Sendo este o cenário onde transcorre a moderna vida humana, é de se imaginar as dificuldades com que seus atores encaram tudo o que desrespeita os princípios e acórdãos de seus argumentos; mais precisamente, a alta cultura, a filosofia e, radicalmente falando, a perspectiva metafísica e religiosa. Quem quer que tome lugar naquilo que Platão chamou de segunda navegação, passando a reconhecer a realidade como sistema ordenado e de sentido transcendente, assume papel dissonante nas cenas do prosaísmo moderno. E isto se dá pelo fato de que é característico da educação clássica ou da religião pôr o homem frente a si mesmo, numa espécie de convite à posse de si por meio da literatura ou dos ritos que, sem bem encarnados pelo sujeito, devolvem-no ao coração do mundo.

Precisamente neste lugar não há repetições — Eis que faço novas todas as coisas (Ap. XXI): a condição mesma para sua existência é a permanente criação, que não cessa de oferecer ao teatro que realizamos os versos ainda não ditos. Nenhuma segunda-feira é igual à outra, nos diria Chesterton. A mais aberrante perversão moderna foi justamente a diminuição do mistério que constitui a vida por um vil artifício de esterilização do novo, do indivisível, do inexprimível — em outras palavras — do criado. A modernidade fez com que o homem não mais se reconhecesse um autor da história, mas apenas um repetidor dos padrões exteriormente projetados.

Daí que até mesmo a religião, a cultura ou a filosofia puderam ser aviltadas pela lógica da cópia e da reprodução, e realidades como a vida espiritual se imiscuíssem à sensaboria do mais do mesmo. As conseqüências, tão tipicamente reconhecidas neste mesmo homem moderno que prefere a comodidade da massa ao confronto do protagonismo, são do conhecimento de todos que ora vivem e também as sentem: tédio, crise existencial, solidão, angústia…

Mas o mesmo teatro do mundo tem assistido a representações de resistência: são os antifrágeis, homens de carne e osso que enfrentam as questões impostas; e combatem o lugar-comum com a precisão; o discurso com a realidade; a massificação e a indistinção com a individualidade. São também intelectuais, artistas e formadores, porém, não sacrificam suas consciências no altar das mentiras oficiais.

É o caso de Unamuno, um dos grandes mestres espanhóis, precursor da Escola de Madri — de Ortega, Marias, Zubiri, Zambrano, Entralgo e tantos outros — que fez da sua própria vida e, por extensão, sua escrita, um monumento de vitalismo; um testemunho radicalmente pessoal e intransferível daquilo que ele mesmo chamou o sentimento trágico da vida.

Neste Agonia do Cristianismo, Miguel de Unamuno trata com a paixão que lhe é característica — a “febre” companheira sua de ofício — o drama que configura sobremaneira o cristianismo: o fato da verdade brilhar na comunhão entre os homens, mas ser tocada somente na intimidade do indivíduo. Por isso que, assumida a perspectiva cristã, a peça a que somos convidados encenar se revele trágica: a tensão insolúvel entre o agora e o depois, entre a vida e a morte, entre o eu e o nós é como a hamartia que só os que agonizam serão capazes de justificar. Apenas aqueles que se aventuram e dão por perdida a vida melhor a guardarão; e isto significa abrir mão das ilusões deste mundo e confessar que o cenário maior em que acontece cada biografia é feito de lutas que não têm nem  a sua origem, tampouco o seu destino, no palco contingente do tempo.

A leitura desta preciosa obra pode ser assumida pelo leitor como um exercício de crítica e posse de si, a partir do qual é suposto responder, ao teatro do mundo, quem é o cristão ou não cristão que julga ser; qual a influência do civil ou do coletivo em sua real existência e, por último e não menos importante, por que razões são bem-aventurados aqueles que agonizam.

 

Tiago Amorim, professor e palestrante, autor de Abertura da Alma (Danúbio, 2015)

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